On the Road e o manifesto à favor do banho explícito
Posted in coisa aleatória, livro
Se há uma coisa que me dá agonia é não saber se o personagem (geralmente em livro) toma banho ou não. Às vezes a cena passa tão corrida, às vezes há tanta ação, tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e não notamos — e talvez nisso o autor também seja falho e não perceba — que as pessoas precisam tomar banho. Não que eu seja uma agente da Vigilância Sanitária que vá interditar quem escreveu por não dar condições mínimas de higienização aos seus personagens, mas preciso levantar esse tão sério questionamento. Será que a cena acontece e só depois disso tomam banho? Será que tomam o banho enquanto atuam, porém nada falam por uma questão de educação, decoro, privacidade? Ou será que gostam mesmo de ser sujinhos?
O que me fez começar a pensar nisso tudo foi a leitura de On the Road. Estou sofridamente quase na metade da história, mas posso dizer aqui, com uma maior propriedade já que vi o filme baseado no livro, que Sal, Dean e Marylou passam a maior parte do tempo — preparem-se para a obviedade — na estrada, pedindo carona, sendo essa uma característica da geração beat, como assim batizou o próprio Kerouac.
A história, uma espécie de diário, é contada a partir do ponto de vista de Sal Paradise, personagem que seria o alter-ego do próprio escritor. Assim sendo, é nos passado em detalhes toda a viagem que não parece ter fim nem rumo certo. Com apenas 50 dólares quando sai da casa confortável de sua tia, hotéis baratos e principalmente caminhões e carros desconhecidos são a via e o jeito que o personagem encontra para chegar até o seu destino, que é encontrar Dean à Oeste dos Estados Unidos.
Mesmo que 50 dólares façam milagres e sejam suficientes para o uso de muitos hotéis e vinhos baratos (segundo as descrições do livro), uma hora acabam. E o garoto da estrada acaba também por só andar em cima de caminhões por dias e às vezes à pé, perambulando à espera de uma próxima carona. Ou então em barraco de um amigo antigo. Ou então numa barraca duma mulher que conheceu ali mesmo. Ou então deitado na relva verde da manhã, por não haver lugar para ficar, muito menos dinheiro algum. Por essas e outras eu me pergunto: tá, mas e o banho? Todos esses dias que passou assim, à mercê da sorte e do lugar, ficou sem tomar banho? Cadê a higiene, rapaz, que não percebo.
Esquecem dos banhos em livros tal qual esquecem da camisinha nas novelas e filmes da vida. Ou necessidades básicas, por que não. Por isso penso que livro perfeito nesse quesito — e em muitos outros — é Ensaio Sobre a Cegueira. Saramago nos deixou bem claro que nah, banho não havia, que todo mundo tava bem sujinho e cagado (senti a necessidade de pedir desculpa pelo termo: desculpa). E isso eu apoio, personagem de livro é gente como a gente, mesmo quando a criatura é a mais irreal possível. Autores, Deixem-nos claro se o personagem tá limpinho ou não, faz bem à nossa imaginação e nos livra da agonia de não saber se, ao nos colocarmos como sendo alguém da história, devemos nos sentir cheirosinhos ou com banho vencido. Obrigada.
![]() |
| "Cara, será que a gente toma banho ou não?" |
























